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Terça-Feira, 29 de dezembro de 1998

Faz três dias que estou no navio rumo à Portugal.
De todos os dias que estive aqui só precisei limpar o convés ontem, pois choveu, no mais eu só sou mais um à bordo. Mas, claro, essa mamata vai acabar. Maresia acaba com qualquer coisa se não for limpa sempre. Amanhã, mesmo sem sujeira, vou ter que limpar.
Gasto as horas de meu dia e parte de minha noite escrevendo ou lendo. Detalhe: de todos que eu encontrei no navio somente eu e o outro responsável pela limpeza é que lemos alguma coisa. Será que nosso tempo é tão ocioso assim?
Seu nome é Marco e posso dizer que é a pessoa mais próxima de mim no navio todo. Ele deixou uma filha em Marselha e não vê a hora de estar novamente com ela. Ela lhe deu um telefone via satélite e os dois conversaram essa tarde enquanto eu olhava o horizonte. Fiquei com inveja por não poder falar com meu filho.
A vida no mar é uma vida muito solitária. Quando saí achei que me adaptaria e até gostaria de olhar o horizonte todas as tardes, mas admito que, sendo a única coisa que posso fazer enquanto não estou de serviço, tornou-se enjoativa no segundo dia. O livro que trouxe eu estava economizando para durar até Portugal, mas acho que não vai dar. Ainda temos uma semana e meia para chegarmos e já estou na metade. À propósito, o livro que trouxe é o predileto de meu filho, pois tem aventura e heróis que usam espada e capa. Ler isso me faz lembrar dele e essa também foi uma coisa que não reparei que me faria mal.
porque meu filho gostaAchei que trazer coisas que me lembrassem o que deixei diminuíssem as distâncias e a saudade, mas não, só fez piorar. Estou nesse momento usando um casaco que ganhei de meu filho (claro que foi Sophia quem comprou) de presente de dia dos pais, estou lendo As Crônicas de Nárnia e escrevendo esse diário na esperança de que algum dia ele veja que o pai dele não o deixou totalmente pra trás; que se importa com ele, mesmo estando longe e sem comunicação por semanas.
Minhas noites são em alto mar, mas eu na verdade estou ao lado de Jean e de Traxa, brincando no tapete com a lareira acesa ao nosso lado, sob o olhar severo de Sophia parada na porta ou sentada em uma poltrona olhando o adulto que jamais cresceu. Adoro pensar nisso.

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