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Sábado, 26 de dezembro de 1998

Estava uma linda manhã quando acordei.
A expectativa pela viagem era grande e eu não consegui ficar muito tempo enrolando na cama. Assim que acordei pulei da cama, e fui tomar um café. Andando nú pela casa, o que é um costume estranho se formos levar em conta o clima de Paris no inverno.
A única coisa que conseguia me preocupar aquela manhã era a despedida. Querendo ou não, eu teria que ir na casa de Sophia. Queria me despedir de Jean (tinha me esquecido de dizer, esse é meu filho) e teria que deixar Traxa para trás. Por mais que as viagens de navio sejam lindas, elas têm algumas restrições quanto a animais, e um doméstico que tem outro lugar pra ficar não se encaixa como "prioridade" por lá.

É tão estranho... Tocar a campainha de uma casa que me acostumei a entrar com minhas próprias chaves. Até a varanda que eu mesmo reformei. Tenho cicatrizes nos joelhos que comprovam isso. Pois bem, era melhor encarar.
Toquei a campainha e ouvi Jean correndo pra abrir. Seu sorriso se abriu ao me ver, mas ele abraçou primeiro a Traxa.
Sophia estava encostada perto da escada. Ela sempre ficou linda grávida e hoje não estava diferente.
Eu tinha uma hora até o embarque, mas não conseguia ficar muito tempo. A tensão era demais ali. Já não era da família, passei a ser visitante, ou mais um pra se mandar um cartão de natal, mas que não é convidado para a festa em si.
Dei um beijo na testa de meu filho, prometendo lhe enviar cartas de todos os portos em que eu parasse. Ele não chorou, pois sabia que eu sempre cumpria minhas promessas. Me deu um abraço e saiu pra brincar com Traxa.
Sophia era de acordo comigo que aquele era um clima pra poucas palavras. Me perguntou quanto tempo eu ficaria fora, e eu apenas respondi que, quando soubesse, diria a ela. Não foi por causa da Traxa que ela perguntou -- apesar de sua aversão por cachorros, uma cadela velha que se enrosca em nossos pés quando vemos TV não é de todo ruim. Não, ela perguntou por causa de Jean, que ficaria sem o pai que já era bastante ausente ser estar viajando pelo mundo em um cargueiro.
Mas, e isso fica entre nós, ela ainda se preocupa comigo. Tudo bem que foi ela quem disse que não dava mais certo entre nós, mas ainda desperto algo dentro dela, mesmo que seja apenas afeto ou carinho.
Dei tchau e sai.
O porto estava vazio naquela manhã. Fazia um frio cortante quando entrei no navio, mas, olhando aquela paisagem que se afastava, aquela costa onde eu deixava coisas importantes pra trás, me deu uma vontade de gritar para pararem o navio, mas não o fiz. Continuei lá, encostado na balaustrada olhando a terra diminuir e sumir numa imensidão azul (nem é pra tanto, já que França e Portugal são vizinhos, mas a sensação é que conta). Deixei cair uma lágrima, que escorreu quente no meu rosto gelado. Era triste, mas em parte era o que eu queria.

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