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Quinta-Feira, 31 de dezembro de 1998

Era uma manhã com ar bastante gelado quando me levantei.
O vento soprava à estibordo e deixava os ouvidos quase entupidos, mas pelo menos a vista compensava. Ainda era só mar, mas o matiz do sol nascendo por entre nuvens era lindo. Por mais que eu não gostasse de acordar cedo em terra firme, no mar as coisas são diferentes. Não se acorda cedo, se é levantado cedo. A buzina é imperdoável.
Bem, hoje à noite é de festa, tanto para mim como para boa parte do mundo. O ano de 1999 promete grandes esperanças, já que muitos crêem que o mundo só dura até o final dele. Besteira, na minha opinião. Pra mim ele representa um período incerto. Não sei quanto tempo passarei no cargueiro, mas se o destino me levar a mais um reveillon em auto mar não vou me importar, desde que eu alguma hora volte para casa e para Jean.
Sei que estou perdendo um tempo precioso com meu filho. 8 anos... a idade dos "porquês" e das descobertas. Mas sei também que um pai separado da mãe na vida de um garoto tão jovem pode causar algumas conseqüências que dificilmente podem ser superadas no futuro. O novo marido de Sophia se preocupa com ele tanto quanto eu, então sei que ele está em boas mãos. E também, quando eu voltar, terei muito o que conversar com ele e ele terá o que me contar de seus dias na escola, seus planos, suas caçadas pelo jardim atrás do gato da vizinha e sobre sua mãe, que quando eu voltar já terá dado à luz.
Há detalhes na vida que precisam ser deixados de lado por um tempo para sentirmos a real necessidade deles. A falta que eu sentia de Jean só me mostrava o quanto eu havia desperdiçado me aplicando em coisas que eu podia ter deixado para depois. E Sophia...
O mar é cruel, voraz e imprevisível, mas também é um grande mestre. Na solidão nos vemos cercados de lembranças e elas nos ensinam.

À noite, quando a primeira rolha de champanha voou pelos ares, e pudemos ver ao longe o clarão dos fogos que eram soltos em Portugal, levantei meu copo, me debrucei na balaustrada olhando para o lado onde havia ficado a costa francesa e disse: "Feliz ano novo, Jean"